Data: 20/11/2020 18:25 / Autor: Redação ABCdoABC / Fonte: Estadão Conteúdo

Laudo aponta que negro espancado em mercado morreu por asfixia

Delegada responsável diz não se tratar de um caso de racismo


João Alberto Silveira Freitas, “Beto”, 40 anos, pode ter morrido da mesma forma que o norte-americano George Floyd: por asfixia. É o que indica o primeiro laudo da necropsia realizada pela perícia de Porto Alegre.

Após colher os primeiros depoimentos, a delegada responsável pelo caso, Roberta Bertoldo, da 2ª Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa, recebeu, na tarde desta sexta, os médicos legistas para elucidar as causas da morte de João Alberto. Durante as agressões, a vítima também foi imobilizada pelos vigias, com o joelho de um deles nas costas.

"O maior indicativo da necropsia é de que ele foi morto por asfixia, pois ele ficou no chão enquanto os dois seguranças pressionavam e comprimiam o corpo de João Alberto dificultando a respiração dele. Ele não conseguia mais fazer o movimento para respirar", informou.

Além dos dois presos envolvidos na morte de João, a delegada adianta que outros envolvidos estão sendo investigados por omissão de socorro. "Duas ou mais pessoas podem ser implicadas por não terem impedido que as agressões continuassem. Foi uma ação completamente desproporcional e atípica para pessoas que exercerem essa atividade", disse Roberta Bertoldo.

A delegada, porém, disse não ter indícios de se tratar de um caso de racismo. "Até este momento, não deslumbramos nada de cunho racial. Não temos nenhum indicativo por essa motivação", disse.

A informação preliminar de que João Alberto teria sofrido um ataque cardíaco enquanto era agredido pelos vigilantes não pôde ser constatada pela perícia. Dois seguranças terceirizados do Carrefour, Giovane Gaspar da Silva, policial militar temporário, e Magno Braz Borges foram levados para prisão. Os dois serão indiciados por homicídio triplamente qualificado - por motivo fútil, asfixia e recurso que impossibilitou a defesa da vítima. A Polícia Federal informou que irá suspender a carteira nacional de vigilante de Magno Braz, e pontuou que o PM envolvido no assassinato não possui o documento. Ainda sobre o envolvimento de um PM, o comandante da Brigada Militar, Coronel Rodrigo Mohr Picon, afirmou que ele deverá ser demitido e responderá civilmente pelo crime cometido.

Espancamento

Paulão Paquetá, vizinho da vítima, contou estar chegando no local quando o espancamento aconteceu. "Estava chegando no local na hora das agressões. Eu estava a uns 10 metros quando começou. Tentamos intervir, mas não conseguimos", diz. Ele ainda afirma que a esposa de Beto também estava na cena do crime.

Segundo ele, cerca de outros oito seguranças ficaram no entorno da área, impedindo a aproximação das pessoas que tentavam parar com as agressões. "Não pararam. A gente gritava 'tão matando o cara', mas continuaram até ele parar de respirar, fizeram a imobilização com o joelho no pescoço do Beto”. Paulão ainda conta que a violência durou cerca de sete minutos, e que alguns motoboys que filmavam a cena tiveram seus celulares tomados.

“Quando viram que ele parou de respirar, eles se apavoraram. Chamaram a Brigada (Militar), que isolou ali e a Samu tentou reanimar." E termina dizendo que não é a primeira vez que esse tipo de violência acontece: "Não é primeira ocorrência do tipo. É a primeira de óbito. Todo mundo sabe que são agressores (seguranças do local) mesmo”.

Delegacia de Polícia de Combate à Intolerância

O caso ocorrido na noite desta quinta-feira (19), levou o governo gaúcho a antecipar o lançamento da Delegacia de Polícia de Combate à Intolerância (DPCI) no Estado. A nova DP será inaugurada no próximo dia 10 de dezembro, quando é celebrado o Dia Internacional dos Direitos Humanos.

"Infelizmente, nesse dia que nós deveríamos estar celebrando essas políticas públicas, nós todos nos deparamos com cenas que nos deixam todos indignados pelo excesso de violência que levou à morte de um cidadão negro num supermercado aqui na capital gaúcha", afirmou Eduardo Leite, governador do Rio Grande do Sul.

Segundo Nadine Anflor, a nova delegacia estará vinculada ao Departamento Estadual de Proteção aos Grupos Vulneráveis (DPGV). "No dia 10 de dezembro estaremos inaugurando a primeira delegacia de intolerância para mudar um pouco essa triste realidade de intolerância e falta de empatia. Hoje, no Dia da Consciência Negra, a gente tem que falar sobre as consequências que essa intolerância, racismo e crimes raciais causam na sociedade", ressaltou a chefe de Polícia.

Carrefour

Além da nota divulgada nas redes sociais do Carrefour Brasil, a empresa afirmou que toda a renda das lojas no País nesta sexta-feira (20) será revertida para projetos de combate ao racismo.

"Essa quantia, obviamente, não reduz a perda irreparável de uma vida, mas é um esforço para ajudar a evitar que isso se repita", afirma a empresa por meio de nota. Além disso, de acordo com o Grupo, todas as unidades abrirão duas horas mais tarde neste sábado (21). Segundo a varejista, o período será utilizado para "reforçar o cumprimento das normas de atuação" exigidas dos funcionários próprios e também das empresas terceirizadas que prestam serviços à companhia.

O Carrefour também reiterou que rompeu o contrato com a empresa que contratava os seguranças envolvidos na morte de João Alberto Silveira Freitas, ocorrida na quinta-feira (19), às vésperas do dia da Consciência Negra, celebrado nesta sexta (20). O Carrefour não revelou o nome da empresa prestadora de serviços.

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