Data: 10/01/2021 10:04 / Autor: Redação ABCdoABC / Fonte: Estadão Conteúdo

Violência atinge ao menos 75% de candidatas a prefeita em capitais

‘Estadão’ enviou questionário às 58 mulheres que concorreram nas eleições; ao menos 44 relataram ter sofrido algum tipo de ataque


Delegada há mais de 20 anos, Adriana Accorsi (PT), de 47 anos, nunca teve sua família ameaçada, mesmo trabalhando em investigações sobre pedofilia e tráfico infantil. Mas foi só concorrer à prefeitura de Goiânia, nas eleições do ano passado, que um perfil anônimo sugeriu a morte de suas filhas – uma de dois e outra de 26 anos: “Já comprou o caixão da Verônica e da Helena?”, diz a mensagem.

“Já fui muito hostilizada. Diziam que eu não daria conta, duvidaram da minha capacidade. Mas jamais os ataques chegaram ao nível do ano passado. Foi o pior”, disse a delegada. Levantamento feito pelo Estadão mostra que Adriana não é exceção entre mulheres que concorreram a prefeituras nas capitais do País. Ao menos 75% delas disseram à reportagem ter sofrido violência política de gênero.

A pesquisa foi enviada a todas as 58 mulheres que concorreram aos Executivos municipais das capitais no ano passado. Destas, 50 responderam. Entre elas, 44 relataram violência. A maior parte (46,7%) disse sofrer ataques com frequência e (72,3%) acredita que os episódios prejudicaram a campanha.

Os ataques são voltados ao corpo da mulher ou relacionados a estereótipos de gêneros, tal como questionamento a papéis sociais tradicionais ou outros meios com objetivo de negar sua competência na esfera política”, disse Tássia Rabelo, doutora em ciência política e professora da Universidade Federal da Paraíba (UFPB).

Uma das candidatas relatou ao Estadão, sob anonimato, ter recebido oferta de R$ 10 mil para retirar a sua candidatura, já que, segundo o autor, ela era “nova e mulher”. Enquanto uma ouviu durante um debate que “mesmo sendo mulher, era boa candidata”, outra escutou, de um jornalista, que não servia para ser prefeita, pois era “mulher, feia e sem alma”.

Menções a maridos e ex-namorados se repetem nas histórias contadas à reportagem. “Perguntaram se meu companheiro estava de acordo com minha candidatura”, disse uma delas. Outra afirmou ter sido alvo de campanha difamatória e de desinformação, com postagens insinuando um relacionamento com um ex-chefe. O uso de elementos de conotação sexual é recorrente. “Não voto para prefeita, te queria na minha cama”, ouviu a deputada Marina Helou (Rede) durante ato de campanha na Avenida Paulista.

No Brasil, o debate sobre violência política de gênero começou a caminhar recentemente. O próprio termo tornou-se mais conhecido no pleito deste ano, com casos de ameaça e agressão contra eleitas. “Começamos a nos aproximar de uma realidade que as mulheres sempre experimentaram na política e que agora estamos desnaturalizando “, diz Roberta Eugênio, pesquisadora associada do Instituto Alziras.

Internet

Na pesquisa feita pelo Estadão, a violência psicológica, aquela que causa danos no estado mental ou emocional, foi quase unânime (97,7%) entre as que sofreram ataques na campanha. O ambiente de mais violência foi a internet, citado por 78% das mulheres. A deputada federal Joice Hasselmann (PSL-SP) foi a mais atacada, segundo um estudo da revista AzMina que analisou tuítes direcionados a candidatas de sete Estados e concluiu que as mulheres receberam mais de 40 xingamentos por dia na plataforma.

Os ataques a Joice se intensificaram após rompimento com o presidente Jair Bolsonaro. “Sofri por um ano e dois meses um estupro moral, que me levou a um hospital e a perder meu útero”, disse Joice. Nas redes sociais, ela foi alvo de ataques gordofóbicos, que incluem “apelidos” como “Peppa Pig” e “Miss Piggy”.

Os casos de violência se estendem a ameaças de morte – ela anda escoltada. Em um dos episódios, recebeu, em um hotel, uma cabeça de porco, uma peruca loira e uma carta com a mensagem “vai sofrer, depois morrer”. Em outra ocasião, recebeu um e-mail com a imagem de uma mulher segurando a cabeça da vereadora assassinada em 2018, Marielle Franco, e a seguinte mensagem: “Senhora é a próxima”. Na campanha à Prefeitura de São Paulo, os ataques pioraram, disse ela.

Além da internet, o próprio ambiente partidário é apontado como um espaço de violência por 18% das candidatas. Joice, por exemplo, conta ter sofrido ataques por parte de outros deputados do PSL e diz ter precisado “brigar” para garantir espaço de liderança na sigla.

Descrédito

Palavras como “inexperiente”, “imatura” e “incapaz” estão entre os adjetivos que as candidatas mais ouvem ao longo do processo eleitoral, segundo a pesquisa.

A deputada estadual Olívia Santana (PCdoB) concorreu à prefeitura de Salvador no ano passado e disse que enfrentou a descrença de sua candidatura por não ter um homem como cabo eleitoral.  “As pessoas diziam: mas você vai até o fim com essa candidatura, mesmo o governador tendo outra candidata? Foi toda uma luta na pré-campanha para justificar à imprensa e às outras lideranças políticas que, sim, eu era candidata e ia apresentar meu projeto”, contou ao Estadão.

Olívia relata ter sofrido pressão ao longo da pré-campanha para desistir de sua candidatura e apoiar outra pessoa. “É preciso muita força para não desistir quando há tanto descrédito.”

Tássia Rabelo diz que a violência política de gênero se tornou um empecilho para as mulheres ocuparem mais espaço na política. “A política é um lugar hostil para as mulheres. E ninguém quer estar em um espaço assim, por mais que acredite e tenha capacidade. Por que fazer parte de um ambiente em que há poucas mulheres e as que têm sofrem com a violência? É um desestímulo.”

Bolívia criou lei após morte de vereadora

A Bolívia é o único país da América Latina a ter uma legislação específica para coibir a violência política de gênero. A lei foi criada dois meses depois do assassinato da vereadora Juana Quispe, em 2012. No Brasil, a Câmara dos Deputados aprovou uma proposta no final de dezembro do ano passado, que prevê prisão de quem assediar, constranger, humilhar, perseguir ou ameaçar candidatas ou detentoras de mandato eletivo.

A cofundadora e diretora do Instituto Update, Beatriz Bella Costa, observa que o grande número de casos de violência contra candidatas nas eleições municipais de 2020 levou, ao menos, o tema a ser discutido. “O assunto virou pauta, começamos a dar um nome para o que acontece. Só assim é possível gerar dados e criar políticas públicas”, disse.

Roberta Eugênio aponta que a legislação brasileira deve observar a interseccionalidade entre a violência política de gênero e outros marcadores sociais. No caso das mulheres negras, ela cita que os ataques geralmente são relacionados a funções sociais de menor prestígio e a um imaginário de subserviência – questões que estão conectadas também ao gênero.

“Quando avançarmos com uma legislação, é necessário que ela considere raça, sexualidade e classe. Caso contrário, avançaremos no enfrentamento à violência política contra as mulheres, mas as abarcadas serão apenas as brancas.”

Joice Hasselmann foi alvo de ataques na internet e recebeu ameaças de morte
Joice Hasselmann foi alvo de ataques na internet e recebeu ameaças de morte

Crédito: Câmara dos Deputados

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